Um povo irmão, afetivo, espontâneo, cordial, autêntico, alegre, generoso, festeiro e barulhento. É assim que muitos turistas estrangeiros que visitam o Brasil definem o povo brasileiro. Essas características foram citadas e debatidas durante o 1º Colóquio sobre Cultura Brasileira da Hospitalidade, iniciativa do Movimento Brasil de Turismo e Cultura realizada no dia 3 de junho em São Paulo durante a segunda edição do Salão do Turismo. Entre os profissionais e representantes do governo, de universidades e do terceiro setor participantes do Colóquio, um consenso: a valorização do povo brasileiro é fundamental no desenvolvimento turístico do país.
Vinícius Lages, gerente da Unidade de Desenvolvimento Setorial do Sebrae – parceiro do Movimento Brasil -, destacou que o Sebrae vem buscando identificar traços comuns da nossa cultura que possam servir de estratégias de inovação, de agregação de valor na produção de bens e serviços no país, inclusive no setor de turismo. “Um dos traços que aparecem em nossas pesquisas é que os brasileiros são reconhecidos como um povo irmão, um povo primo de quase todo mundo, porque tivemos aqui diversas correntes migratórias. Somos efetivamente capazes de nos relacionar com japoneses, coreanos, africanos, poloneses, alemães, italianos, etc. Esse é um dos elementos que podemos destacar na nossa promoção turística internacional.”
Já Silvestre Teixeira, assessor da Presidência do Instituto de Hospitalidade – parceiro executivo do Movimento Brasil -, levantou alguns questionamentos. “Quando o tema é Cultura Brasileira da Hospitalidade, não existem definições e certezas fechadas, mas podemos ‘desconfiar’ de muitas coisas. Existe realmente uma Cultura Brasileira da Hospitalidade? Se não existe, é possível construí-la? Sendo possível, quais as possibilidades e urgências de transformá-la em uma prática?”
Para Marta Irving, professora do curso de pós-graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “esse é um tema da maior relevância no momento atual, em que se pensa o turismo não apenas como um produto de mercado, mas como uma possibilidade diferenciada para o nosso país, uma possibilidade de inclusão social a curto, médio e longo prazo.” Ela listou uma série de noções que são citadas pelos turistas como características brasileiras e destacou a importância da transformação desses traços culturais em atrativos turísticos. “São vários diferenciais positivos, mas como utilizá-los no turismo?”, questiona a pesquisadora. Marta destaca ainda a importância da quebra de clichês geralmente relacionados ao Brasil no exterior - como futebol, carnaval, café e Pelé -, para a construção de uma relação mais elaborada e rica entre morador e visitante.
Carolina Campos, consultora do Ministério do Turismo na área de Turismo Cultural, apresentou os conceitos de cultura e hospitalidade que vêm sendo trabalhados pelo Ministério do Turismo e listou uma série de ações que buscam ressaltar os valores da hospitalidade brasileira na atividade turística. Entre elas estão a valorização das características típicas do bem receber brasileiro; e a motivação e a capacitação dos prestadores de serviços turísticos para valorizar a expressão da hospitalidade nas comunidades.
A partir de suas experiências como editor da Revista Ícaro Brasil há 23 anos, Carlos Moraes relatou vários “causos” e, com exemplos, detalhou o que considera “o jeito brasileiro de ser”. Moraes contou que, ao perguntar ao dono de uma grande rede hoteleira internacional qual era o diferencial brasileiro, ouviu a seguinte resposta: “Uma atitude a gente nasce ou não nasce com ela; uma técnica, a gente ensina. A atitude básica do jeito de ser brasileiro é cordial, calorosa. Em cima dela, com um pouco de técnica e conhecimento, temos tido resultados formidáveis no Brasil”.
Segundo Alfredo Manevy, Secretário de Políticas Culturais e responsável pelo Plano Nacional de Cultura do Ministério da Cultura, “o desafio é estabelecermos uma agenda de turismo cultural que reconheça, proteja e fortaleça os laços espirituais, imateriais e simbólicos entre as populações e os turistas.” Para Manevy, no jogo da globalização os países sofrem uma natural ameaça de homogeneização por meio de forças econômicas que não respeitam essa hospitalidade, essa receptividade e essas características do ser brasileiro. “Felizmente hoje já há uma percepção cada vez maior por parte das autoridades brasileiras de que a dimensão vital da experiência populacional, dos saberes e fazeres, é o ponto mais relevante da preservação e da experiência turística.”
Este primeiro colóquio faz parte dos "Encontros sobre Cultura Brasileira da Hospitalidade", iniciativa promovida pelo Instituto de Hospitalidade e pelo Sebrae, em parceria com o Ministério do Turismo, que visa convergir numa discussão única e representativa as principais questões, visões e experiências sobre o “jeito brasileiro de ser” e seu reflexo na prática do turismo e da hospitalidade.
As questões conceituais e práticas colocadas nesse colóquio serão retomadas e aprofundadas nos próximos encontros, que incluem ainda um colóquio em Salvador, na Bahia, em setembro; e um em Porto Alegre, durante o Destinations2006, entre 29 de novembro e 2 de dezembro. Em 2007, um seminário vai aprofundar as questões levantadas nos colóquios, de modo que as discussões teóricas sobre a relação entre turismo e cultura possam alimentar as experiências e práticas cotidianas.